:: Livros :: Biografia :: Livro de Visitas :: Fotos :: Agradecimentos :: Blog
  Livro: Meus Contos, Vossa História    

O Professor

 

O grotesco lado dos eventos do dia-a-dia te impede de ver a real infelicidade das paixões.
Barnave
.


Tornara-se um ritual. Todas as tardes ele caminhava em direção ao carro, as mãos cheias de giz tentando segurar as pastas e livros. Abria a porta, guardava o material e, antes de entrar no veículo, acenava para o vendedor de pipocas que fazia suas vendas em frente ao portão do colégio, saindo em seguida, sempre sorrindo. Todos o admiravam, não só como profissional, mas também como marido e pai exemplar. Seu amor, seu zelo para com sua família eram louvados e imitados tanto por muitos dos noivos da cidade que o convidavam para ser seu padrinho de casamento, como também pelos pais de seus alunos. Não havia um dia em que a mãe de algum desses pupilos não lhe mandasse um doce, uma receita especial. Era considerado o melhor professor de português da cidade; a meninada do ginásio o adorava, aliás, ensinar era a grande paixão da sua vida.

Costumava dizer que “somente o sorriso de um moleque daqueles na sala dizendo que entendeu o que é o sujeito da oração, ou pra que serve a voz passiva analítica” bastava para que ganhasse o dia. A maneira como explicava era tão divertida, prendia tanto a atenção dos alunos, que nos dias da aula de português não se ouvia barulho algum na sala onde estivesse e muito menos nas que fossem vizinhas à sua; nestas, o silêncio era para tentar ouvir que piada nova o professor traria, que xaveco novo ele faria da gramática. O único barulho que se ouvia era a voz dos outros professores e a sua própria, encorpada, grave, e as gargalhadas que tirava de sua platéia extremamente atenta.

Se faltava à aula por algum motivo, logo se via uma aglomeração na porta da diretoria, todos os alunos querendo saber o que acontecera com o professor Carlos, por que o professor Carlos não viera. A diretora, uma mulher magra, de óculos com grau tão forte que seus olhos quase saltavam para fora do rosto, dizia com sua voz lânguida e aguda: “Não aconteceu nada com o professor, ele teve que levar o filho ao dentista” ou “hoje é dia da ultra-sonografia da mulher do professor, ele tem que saber se o neném está bem” e assim por diante. Não satisfeitas, as crianças forçavam-na a ligar para Carlos, queriam ouvir sua voz, e quando o representante escolhido por eles para falar com o professor ao telefone vinha, geralmente com o ar sombrio, fazendo suspense, os meninos arregalavam os olhos, as meninas tentavam conter as lágrimas, até que o mensageiro dizia que o professor mandara um abraço para todos; aí era aquela festa, todos se abraçavam e iam para as salas, aliviados.


Naqueles dias estava extremamente feliz. Numa das ultra-sonografias descobriu que o filho que esperavam era uma menina.
- Agora a gente vai ter um casalzinho. – dizia com um sorriso todo faceiro olhando para a mulher cuja expressão plácida, cujos olhos de um verde musgo, em contraste com aquele rosto moreno e a pele macia, faziam-no muito mais se emocionar – Que sorte que Deus me deu de ter um anjo ao meu lado.
- Quem tem sorte sou eu, meu bem. – respondia Isaura. – Ele me deu tudo de que eu precisava. – era a própria satisfação.
Carlos casara-se cedo, aos vinte e um anos, Isaura tinha vinte. No primeiro ano de casamento tiveram um filho, o Vítor. Aquela criança era a alegria maior do mundo para ele. Quando chegava do trabalho, depois que o neném estava alimentado, ele o tomava no colo e recitava poemas, cantava músicas, especialmente O Leaozinho, do Caetano Veloso, deitava-se no chão e colocava o filho sobre a barriga, aquecendo-o no calor do seu amor. Agora que Vítor fizera dez anos, estava para chegar outra alegria para o casal Maronato. Como ele era feliz! “Uma mulher que é uma fada, um filho que é um anjo, uma casa quase boa no melhor bairro da cidade, um bom emprego ... tudo está indo de vento em popa” costumava dizer aos amigos.


Foi naqueles dias também que surgiu ao Carlos uma vaga para ensinar num colégio de segundo grau. Talvez os leitores ainda lembrem que nosso protagonista era educador de escola fundamental. Pois bem, não posso dizer que ele ficara feliz com a notícia, mas tampouco ficara triste. Assumir outras turmas significaria tempo reduzido com sua família, significaria mais provas a corrigir, enfim, mais trabalho. Mas só em pensar que com o segundo grau os rendimentos aumentariam um pouco mais, poderia dar ao neném um pouquinho mais de conforto, menos atenção não precisa ser dito, mas era bom lembrar que teria mais segurança, e isso fez com que ele se inclinasse a aceitar o convite, muito embora ele tenha ainda titubeado pedindo para dar a resposta no outro dia, depois que consultasse a mulher e um amigo muito chegado, o Nestor.


- Então, o que você me diz? – estavam sentados no sofá da sala. Isaura ao seu lado, Nestor, de frente a eles, segurando uma xícara de café.
- Amigo velho, quem pode decidir isso é você. – ajeitou os óculos. – Eu – leva a mão ao peito – Aceitaria, justamente pensando em minha família, mas isso... sou eu. – sua voz era tranqüila. – Você...
- Eu acho que você deve aceitar sim, meu bem – Isaura intervinha – Afinal, agora a gente vai poder reformar o quarto de Vítor – ela fez uma expressão de súplica, arregalando os olhos, derreando os lábios – Ele está meio enciumado com a chegada da irmazinha...
- Isso é um problema – disse Nestor. – É preciso mostrar ao menino que ele não perdeu o lugar que tinha no coração de vocês.
- Mas o Vítor já é um rapaz – Carlos tentava prolongar a conversa, colocando uma pequena resistência, que só acontecia no exterior, porque ele já tomara a decisão de assumir as turmas. – Ele já entende as coisas muito bem.
- Que rapaz que nada -  Nestor rebatia entre um gole de café – E mesmo que fosse, o ciúme é um sentimento natural dos mamíferos, meu caro. Começou com Caim e Abel e atravessou toda a história da humanidade. Veja o que acontece quando você começa a brincar com o Hércules – esse era o nome do fila brasileiro que o casal tinha em casa – A Guineverre – a fêmea – logo se lança na frente dele. – Carlos ia objetar, quando Nestor prosseguiu. - E ademais, nós seríamos colegas.
- É... – disse dissimulando a decisão – Você tem razão e, mesmo porque, vou poder voltar a ensinar literatura.
- Pois então meu amor – Isaura trazia uma chama nos olhos, uma alegria radiante no sorriso – Essa é mesmo uma benção de Deus. – dissera aquelas palavras com ênfase tamanha que, se algum serafim passasse por ali, àquela hora, era bem capaz de prostrar-se a recitar o Kadosh.

Começara a trabalhar na semana seguinte. O colégio, particular, era de fazer cair o queixo, completamente diferente do padrão estadual. Ele estava encantado. Os alunos eram mais bem apessoados que na outra escola, rapazes e moças bonitos, de bom trato. Nem parecia que estava na mesma cidade. Logo as turmas se afeiçoaram a ele. Havia uma aluna, então, que não o deixava sozinho, fazia questão de estar ao portão quando ele chegasse e saísse. Seu nome era Máira. Contava dezessete, dezoito anos, tinha os cabelos compridos até aos ombros, os olhos castanhos e profundos, os lábios mimosos como um botão de rosa. Quando Carlos saía do carro, ela o tomava pelo braço e levava à sala de aula com o mesmo ar altivo de um jóquei desfilando com o cavalo campeão. E foi assim que se passaram os primeiros quatro ou cinco meses.


Num certo dia, Nestor fora chamado à escola a fim de substituir um colega que adoecera. Quando saía do carro, a cena, anteriormente citada, chamou sua atenção; ele parou para observá-la e notou, na trivialidade daquele ato, algo que, talvez, ninguém ainda tivesse percebido: os olhos de Máira, estreitados, sorridentes, encantados, suplicantes como na mais adolescente das paixões. O rosto de Nestor tornou-se grave, compenetrado, um olhar inquiridor, um meneio de cabeça e um suspiro profundo que se intensificou muito mais diante do sorriso aberto do amigo quando a menina, antes de tomá-lo pelo braço, ajeitou seus cabelos ondeados, que lhe caíam sobre a testa, e o colarinho da camisa. Isso então fez com que Nestor quase se sentasse no chão. Sentia a cabeça meio tonta, de maneira que precisou respirar mais profundamente que antes, trazendo ao coração aquele aperto, aquela aceleração que se sente quando se está face a um grande precipício e se sabe que um vento qualquer pode nos empurrar para baixo.

É valido ressaltar, para evitar interpretações distorcidas acerca do relacionamento entre Nestor e Carlos, que eles eram amigos de infância, se conheciam desde os cinco, seis anos, moravam na mesma rua; um não saía da casa do outro. Tiveram a primeira namorada na mesma semana, noivaram no mesmo dia, casaram no mesmo dia e na mesma igreja. Só não passaram a lua de mel no mesmo lugar porque a mulher de Nestor tinha o sonho de conhecer Gramado e Isaura, Salvador. Ele conhecia o amigo como ninguém. Carlos dizia que Nestor o conhecia mais que ele próprio; e esse mesmo Nestor agora atentara para aquele fato: um colarinho! Os leitores ainda não sabem, mas Carlos não era do tipo que se preocupava muito com a aparência, ele era o que se pode chamar de carefree looks, vestia um jeans qualquer, a primeira camisa que viesse à mão, calçava um tênis sujo que o acompanhava desde muito tempo, ao qual nunca lavara, e saía. Mas agora ele estava usando camisa social, engomada! E por dentro da calça, de linho! O tênis dera lugar a um sapato de couro marrom! Os cabelos que andavam sempre meio desgrenhados, agora estavam ensebados para traz com algum desses cremes para pentear, a barba sempre bem feita! Era verdade! Desde oito, dez semanas que o Carlos não trazia a barba por fazer! Nestor estava lívido ante os pensamentos que lhe cortavam a mente e só saiu do seu torpor quando Carlos sacudiu seu braço.


- Ô rapaz – disse-lhe o amigo – Você está se sentindo bem?
- Hum? – Nestor murmurou, quase que grunhindo.
- Você está pálido. – desprendeu-se de Máira, deu-lhe os livros para segurar. – E frio. O que é que houve?
- Ah... nada. – sorriu sem jeito. A expressão tão exangue quanto seu rosto.
- Sua cara está tão engraçada! – tomou-o pelo braço – Vamos para a sala. – pediu que a moça os acompanhasse e lá ofereceu água ao amigo, bateu-lhe levemente ao rosto para ver se esse recobrava um pouco a cor. Mas não adiantou muito, Nestor manteve aquele ar pasmado por muito tempo ainda. Não disse ao amigo o porquê de sua expressão, antes tentava convencer-se de que estivesse imaginando coisas, “procurando chifres em cabeça de cavalo”. Mas tentar não significa conseguir e aquele pensamento o perseguiu durante toda a semana, e todos os dias ele observava o comportamento de Carlos e Máira, sempre com a mão sobre os lábios, sem querer acreditar no que pensava entender.

Carlos era um exemplo de pudor, de brio, de amor à família, até para Nestor. Vá lá que na adolescência ele fosse o terror dos pais preocupados com a castidade, mas depois de casado, sua mulher se tornara a única no mundo. A maneira como ele a tratava, acarinhava, falava dela ... não, não podia ser!
Nós sabemos, no entanto, que algumas coisas acontecem sem que estejamos conscientes delas, é preciso que alguém de fora do contexto nos abra os olhos, nos mostre o caminho certo a seguir. O que nós não sabemos, contudo, é o que se passa no aconchego do lar, entre quatro paredes, nem tampouco o que estas coisas que ocorrem no matrimônio podem causar no íntimo de cada um, afinal, coração de gente, como diria minha avó, é terra em que ninguém passeia.


Por isso digo que parece-me (e repito, parece-me) que as pessoas, quando se casam, esquecem-se do que reza o ditado: que o amor é como uma flor que precisa ser regado continuamente. Começam a ter por certo que seu cônjuge sempre os amará, que o amor nunca se transformará, que em seu jardim sempre florido jamais haverá uma pétala qualquer, murcha, ao chão. Então se esquecem de praticar aquelas coisas pequenas, quase sem importância, mas que mantêm quaisquer relacionamentos sempre ativos: carinho, atenção, palavras de conforto e estímulo, beijinhos, abraços, um cafuné depois de um dia de trabalho, para citar as mais triviais. Afinal de contas qual o marido (isto eu pergunto aos menos embrutecidos) que não gosta de receber aquele “cheiro” de sua companheira ao chegar em casa, ou das melodiosas palavras “amor, quer que esquente a janta?”, quem não gosta da atenção da mulher amada, dos seus cuidados, de saber que ali ela está, esperando com um beijinho doce? E Carlos estava sentindo falta disso desde que sua esposa engravidara. Pensou que depois do nascimento do neném as coisas mudariam, mas parece que não mudaram.


Um mês, um mês e meio depois (não temos a intenção de sermos fiéis às datas) que Carlos assumira o segundo grau, nasceu sua filha, “a coisinha mais linda do mundo”, segundo suas próprias palavras, parecia consigo. Os olhos acinzentados, os cabelinhos ruivos como as folhas da amendoeira no inverno e a pele alvinha alvinha. Era um mimo aquela criança, a quem Isaura dedicava-se dia e noite como à própria vida, chegando mesmo a esquecer-se de suas obrigações conjugais, dos seus carinhos a que o marido estava tão afeito; agora nem sequer tinham tempo para conversar, afinal, toda vez que começavam, a criança chorava ou Vítor pedia atenção. A dedicação da mulher às crianças deixava Carlos num misto de embevecimento e ressentimento, ele era pai, entendia que era preciso dispensar atenção aos pequenos, mas era marido, também precisava de atenção, carinho e foi por estas palavras, talvez necessidades, que Carlos se encantou com Máira - Prestem atenção, a palavra foi encantamento, ademais de sua figura ser tão bela, tão fresca – Ela lhe sorria, ria com ele, elogiava-o, alheia a qualquer problema que ele e Isaura estivessem enfrentando com o filho mais velho, com as contas, com as reformas - ela não lhe cobrava nada, só sorria.


Certo dia Nestor e a mulher foram visitar o casal Maronato. Conversavam animadamente – até então Nestor nada tinha comentado com sua esposa nem com o amigo, quando num determinado ponto da conversa, Cristina, a mulher de Nestor, diz:
- Eu estou lendo um livro que fala de uma estudante que seduz um professor do colégio onde estuda e acaba com a vida do homem. – Nestor empalidece, Carlos sorri, amareladamente, mas não por algum remorso consciente, talvez devido a um lampejo vindo das entranhas do subconsciente.  – Eu falei com o Nestor que eu capava – enfatizou a palavra - ele se ele fizesse isso. – todos riem. – E você Isa, afinal, um brotão desses que você tem...
- Eu nem me preocupo com isso – disse, plácida, trazendo um sorriso cândido no rosto, uma expressão virginal – Meu marido me ama, e quando a gente ama, a gente não trai.
- Mas isso não é questão de amor, é de feromônios, minha querida, e o homem é um animal. – retorquiu Cristina - Quando ele sente o odor da fêmea, pára de pensar com a cabeça de cima, como dizem – bate no braço do marido, o olhar ameaçador.
- Eu não acredito nisso - retrucou Isaura. – Por exemplo você, Nestor, e se uma aluninha desse em cima de você, hein?
- Estou de acordo Isaura, quem ama não trai – disse isso com tanta força que Cristina sorriu largamente, mas na verdade tentava convencer o amigo. – E tenho certeza que essa é a opinião de Carlos também – falava mais sugerindo do que crendo – Né não, Carlão?
- Claro – este assentiu, ainda inocente, ninando a filhinha nos braços.
- Isso eu também tenho certeza – disse Cristina – Carlos é um marido exemplar, não era ele quem dizia que depois de casado amizade com mulher é só “bom dia, boa tarde, boa noite”?
- É – Nestor correu a relembrar ao amigo – Amizade entre homem e mulher não existe, não é ô Carlão? – novamente seu tom era alto, sugestivo, na verdade, impositivo. Carlos apenas assentia, alheio à intenção do amigo.
  Só que no colégio a história era outra, agora não mais Carlos tinha a aluna presa ao braço, ela tomava-o pela cintura, para escândalo de Nestor. Este sem conseguir se conter mais, chamou o amigo ao canto e disse:
- Ô rapaz – o tom era altivo – Que história é essa de ficar agarrando aluna?
- Como? – Carlos respondeu, atônito.
- Que negócio é esse de ter aluna presa na sua cintura, você é casado. – seu olhar chamejava.
- Mas... – Carlos parou, pensou um pouco – Às vezes é bom você sentir um cheiro de mulher, aquela pele macia roçando a sua.
- Você tem mulher, rapaz. – Nestor estava bestificado ante a resposta do amigo, por isso seu tom enraivecido.
- Tenho, posso até estar errado em abraçar outras, mas você sabe o que é ficar quase seis meses sem... – procura encontrar eufemismos – Sem umazinha?
- Ma... – Nestor perde as palavras. Falando só depois de um breve silêncio – E por que você não conversa com sua mulher?
- E a gente lá tem tempo de conversar? – Carlos se irrita, não com o amigo, mas com a situação – Toda vez que está quase rolando, o neném chora, o Vitinho aparece, isso quando a Isaura não enjoava.
- Carlão, você sabe onde é que essa história vai dar. – leva a mão ao ombro do amigo – Agora você abraça, daqui a pouco está entre as pernas dela.
- Se preocupa não, rapaz. – Carlos sorria pela preocupação do outro – Eu conheço meus limites. - bateu-lhe ao peito. – Mas para te tranqüilizar, vou parar de dar atenção à menina.
E assim foi, todas as vezes que ela chegava perto, Carlos dava um jeito de sumir-se, de afastar-se. Não permitia que conversa alguma entre os dois acontecesse, e ela entendeu.

Só que sua natureza era extremamente vaidosa, jamais aceitava perder. Aliás tudo era apenas uma questão de conquista. E o que ela pôde fazer, aproveitando-se do colégio ser uma instituição religiosa, cuja farda feminina era composta de saia e blusa, foi simplesmente não usar roupa de baixo. Sentava-se bem à frente da mesa de Carlos e aos poucos levantava a barra da saia até ao ponto de suas coxas estarem bem à mostra, então, ela descruzava as pernas, o olhar extremamente angelical, a caneta posta aos lábios, e a cada dois minutos um suspiro. Parecia que ninguém notava a não ser Carlos, que com sua curiosidade de macho, não conseguia ficar indiferente, de maneira que parou de circular pela sala, como era de costume, parecendo às vezes perdido nas explicações. Quando falava do arcadismo, do loquos amoenus , suspirava. Ficava sentado à mesa até alguns minutos depois da aula, sempre colocando os livros sobre o colo antes de levantar-se. Aquilo já o estava matando. Certo dia, num desses sábados em que ia pescar com Nestor, abriu o coração para o amigo.


- Aquela menina é uma diaba – dizia sorrindo, mais de nervoso que de graça – Ela agora inventou de ir sem calcinha! – levava as mãos ao ar – Imagine você, sem cal-ci-nha!
- Bem aventurados são os que se fazem de cegos, meu amigo. – Nestor tentava catequizá-lo – Porque destes é o Lar feliz e a Estabilidade familiar. Lembre-se de Verlaine  e Rimbauld.
- Seis meses, Nestor – dizia angustiado – Seis meses. Parece que a Isa perdeu o interesse.
- Isso acontece, meu irmão. Têm mulheres que são assim – o mesmo acontecera com Cristina na segunda gravidez – Vai levando. “Bem aventurado é o varão que é tentado porque depois de provado receberá a coroa da vida”.
- Será que eu não posso amar Isaura e me divertir com a guria? – perguntava quase que desesperado.
- Camelus cupies cornua, aures perdidit . – eleva o indicador como se estivesse palestrando. Mas Carlos não era muito afeito às coisas celestiais, nem à máximas latinas. Não tinha vocação para o celibato nem ao menos para a santificação. Sua existência era o mais telúrica possível.
- O que será que acontece quando uma cadela no cio passa entre um bando de cães machos?” ele perguntava a Nestor, respondendo em seguida: “Todos eles vão em cima pra tirar sua lasquinha, e quando ela não deixa, um monta no outro, é o instinto”. Nestor ouvia a tudo, divertido. Até que interferiu com uma de suas frases filosóficas: “A diferença entre os homens e os animais, está na razão. Os animais agem por instinto, por sobrevivência. O homem, como Deus, deve superar o instinto e entregar-se à razão. O homem que age por instinto é um quadrúpede dendrobata que ainda não desceu das árvores, ou melhor, como disse Alberto a Werther, ‘o homem que se deixa arrastar pela paixão perde a capacidade de refletir e deve ser considerado como um ébrio, um demente’ ”.
- Bem aventurados são os loucos – redargüiu Carlos, lembrando-se de um texto árabe, do Alcorão – a quem Deus tirou a razão para que não pequem.


 E aquela foi a última vez que os amigos se viram. Depois daquele dia Carlos desapareceu. Deixou de procurar Nestor, de ir pescar com ele como fazia todos os sábados; se o amigo ligava, ele nunca estava. No colégio, deixou de freqüentar a sala dos professores para evitar encontrá-lo. Não pensem vocês que ele tomara ódio ao amigo pelos seus conselhos ou que se enfadara de sua preocupação com sua estabilidade matrimonial. Na verdade sabia que o amigo o adorava, e, por isso, se preocupava com ele. O que estava acontecendo não era nada mais que uma atitude que todas as almas atormentadas pelo desejo do pecado costumam tomar: afastar-se daqueles de quem poderão receber conselhos contrários ao seu cego desejo de satisfazerem os apelos carnais, daqueles que com o poder do discurso e da persuasão podem demovê-los da sedução e do engodo de seus instintos mais primitivos. Mas os acasos existem, e as coincidências são uma ajuda de Deus para salvar os juízos agrilhoados pela música de Pan . Numa certa manhã, enquanto passeava pelo shopping, Nestor encontra Carlos numa casa de flores. Este empalidece.


- Comprando flores para Isaura? – tentava dissimular a suspeita. Carlos não abre a boca, parece estar envergonhado, falando apenas diante da insistência de Nestor.
- Nestor, amigo velho, eu nunca menti pra você esses anos todos. – abaixou a vista e contou que Máira parara de perseguí-lo e que agora o convidara a almoçar em sua casa para fazerem as pazes. Nestor meneou a cabeça em sinal de desaprovação.
- Fazerem as pazes? – riu-se – Você é convidado a almoçar na casa de uma mulher, sem a presença de sua esposa – isso ele enfatizou – Pra fazer as pazes? – levou a mão à face – Você não acredita nisso, não é?
- Acho que não. – Carlos respondeu depois de certo silêncio. – Você está certo, se ela quisesse “fazer as pazes” tinha convidado Isaura também - sua reflexão era sincera.
- Eu sei o que vamos fazer. – Carlos levanta as vistas – Você vai ligar pra ela agora e dizer o seguinte: “me desculpe, não vou poder ir porque minha esposa não está muito bem disposta para me acompanhar. Mas se você puder marcar um outro dia, nós iremos”. – Carlos sorri diante do discurso do amigo. Tenta encontrar uma desculpa para não fazer o que o outro dissera.
- Eu não tenho o número do telefone.
- Isso é coisa que se arranja. Espere – saiu em direção a um telefone público, voltando alguns minutos depois com um pedaço de papel na mão. – Aqui, o número é este. Vamos ligar agora. – saiu segurando Carlos pelo braço, como alguns pais fazem com seus filhos a fim de que estes obedeçam ao que dizem. – Então? Abre a boca.
- Alô! – disse Carlos meio tímido – Máira, me desculpe... ah... não vou poder ir hoje.
- Fala da sua mulher!
- Minha mulher não vai poder ir, então eu achei melhor adiarmos. Algum problema? Então nos vemos na segunda. Té logo.
- Agiste como o homem que sempre pensei que foste! – Nestor trazia um riso de par a par no rosto – Muito bem! O verdadeiro homem é aquele que vence seus instintos em nome da razão!


 Com o semblante meio ressabiado, um tanto arrependido, Carlos despediu-se do amigo dizendo que precisava ver sua esposa, seus filhos. Abraçaram-se e Nestor, com um orgulho paternal, viu-o sumir-se entre a multidão. O que ele não sabia é que por uma outra coincidência do acaso, o telefone da moça, no momento em que Carlos ligou, estava providencialmente fora do gancho. E ao encontro de Máira ele partiu àquela tarde. Ainda sem saber o que fazia, cegado pelas escamas do determinismo biológico. Seus pais haviam viajado, e por estar só, o convidara a almoçarem juntos. Ela era a ninfa Salmácis e ele Hermafrodito encantado com a limpidez do lago de Cária, só bastou-lhe entrar, ela o abraçou e ambos se fizeram um. Não precisamos discorrer sobre o que aconteceu naquela tarde, os leitores de Nélson Rodrigues ou de Adelaide Carraro já podem bem imaginar. Satisfeitas as vontades do varão – se quisermos pôr em termos bíblicos a fim de moralizarmos um pouco a história – os amantes despediram-se, mas não sem repetir o que haviam feito por quase toda a tarde. Refastelando-se felizes por mais algumas horas.


 Quando chegou em casa, foi que Carlos caiu em si. Mal pôde olhar para sua esposa, seus filhos. Sentiu um remorso e uma vergonha imensamente grandes que pareciam devorá-lo como o fogo que consumiu a Nadabe e Abiú  no deserto. Aqueles olhos enternecidos, o sorriso plácido, a voz mansa dizendo a Vítor que abraçasse o pai, que o beijasse, e a frase que ele não esperava ouvir naquele momento:
- Agora – disse Isaura – Minha vida está completa. Meus três maiores amores estão ao meu redor. – levantou-se com o neném nos braços, caminhou em direção ao marido, beijou-lhe a face ternamente – Ai Deus! – exclamou – Como Você é bom pra mim.
Carlos, ao ressoar dessas palavras, sentiu suas entranhas comprimirem-se, seu coração tremular e o remorso, como se houvera ingerido estriquinina, corroer sua alma. Não conseguiu segurar o pranto e chorou amargamente e de tal forma que seu corpo parecia que iria quebrar-se ao meio. Isaura, inocente, o consolava dizendo-lhe que ela também o amava e que ninguém, ninguém mesmo, teve o amor que ela tem por ele. Imaginem o peso que essas palavras trouxeram aos ombros daquele pobre diabo vencido pelos forças da luxúria! Em vez de consolá-lo, essas palavras aumentaram ainda mais sua comoção, e Carlos chorou como que sentindo o peso da cruz no Gólgota. Mas o pior ainda estava por vir. Pobre Carlos! Ao chegar ao colégio na segunda-feira teve de enfrentar os olhares dos alunos, alguns revoltados, outros enojados, outros simplesmente decepcionados com aquela figura que lhes inspirava tanta racionalidade e respeito. Os professores, exceto Nestor, estavam todos em assembléia, junto com os pais dos alunos, esperando a Carlos como Herodias  a João o Batista. Como dissemos antes, para Máira tratava-se apenas de uma conquista, e essa conquista era muito maior se o homem fosse casado. Ela ligou para todas as amigas, depois daquela tarde de amor tórrido, lhes contando tudo o que acontecera, e os leitores sabem como as notícias voam, especialmente entre os adolescentes.

Toda a comunidade unira-se contra aquele homem “hipócrita” que “usara de seu poder como professor para seduzir uma aluna”, aquele “monstro” merecia a cadeia.  Mas para lá ele não foi, seu suplício foi muito pior, além de perder a credibilidade na cidade, perdeu os empregos, os amigos e a família. Seu filho não queria vê-lo nem pintado de ouro, Isaura era a própria face da morte de tão infeliz e chocada que estava. A única pessoa que lhe restou foi Nestor, seu amigo de longas datas que, após passado o primeiro momento de decepção, foi confortá-lo, indo visitá-lo, três semanas depois, no quarto de pensão onde agora morava; uma espelunca no centro da cidade. Ao vê-lo, Carlos teve outro acesso de choro compulsivo.
- Calma, meu irmão. – dizia-lhe Nestor com a voz entrecortada por lágrimas – Não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe.
- Uma tarde – Carlos balbuciava entre soluços – Uma tarde e minha vida acabou. Uma tarde apenas.
Nestor suspirou longamente enquanto Carlos se desfazia em lágrimas.